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domingo, 14 de outubro de 2007

Guevara

Nesses mesmos dias, Guevara estava retraído com um grupo de 16 homens, fugindo à perseguição de mais de 1500 ranger. Para os líderes militares, a documentação recolhida foi mais convincente que para os embaixadores. Para eles não há duvida: Che estava encurralado no fundo de um barranco coberto de vegetação, mas cujas bordas, totalmente desnudas, não lhe permitiam sair sem ser visto.
Juntou-se, no entanto, o testemunho de um desertor, que nos últimos dias de setembro se entregara ao Exército, perto do Rio Grande, valendo-se de um indulto oferecido a todos os que se rendessem imediatamente. O desertor explicou que Che estava gravemente doente, o que parece ter sido um exagero, pelo menos no momento da declaração.
No dia 26 de setembro, dá-se um combate em Higueras, bem próximo à quebrada de Yuro. Foi longo e à luz do meio-dia, o que os levou a abandonar seus mortos – três, entre eles o líder boliviano Roberto Peredo. Acabavam de se reabastecer de provisões e medicamentos, quando apareceu a patrulha do Exército e tiveram de travar batalha.
A partir desse encontro, a força de Che fracionou-se para melhor se deslocar e volta a se reunir à noite em lugares combinados de antemão. Guevara tem que conhecer bem o terreno em que se move, para decidir o rumo, e o faz nos dias 6 e 7de outubro, quando completa 12 meses contínuos de operações militares na selva. É otimista quanto ao futuro, já que não interrompe as anotações de seu diário e considera que a organização guerrilheira se desenvolve até então “sem complicações”.
Nesse dia fazem contatos esporádicos com camponeses. Uma velha pastoreando uma cabra assegura que não vê os soldados há bastante tempo, mas os guerrilheiros desconfiam das notícias. De tarde, alguns homens entram numa casa onde há outra mulher, com uma filha prostada na cama e deixam dinheiro para que ela se cale, embora sem muita esperança de que ela o faça.
Recomeçaram a marcha sobre um solo delator, semeado de batatas junto aos veios d’água, que partem do rio Yuro e registram as pegadas úmidas dos 16 guerrilheiros.
No dia 8, uma camponesa avisa o Exército de que ouviu vozes no vale do rio Yuro, perto da desembocadura de Santo Antônio. Os militares enviam várias patrulhas de reconhecimento e, por volta de uma e meia da tarde, uma rajada de metralhadora dos rangers revela que foi estabelecido contato com a guerrilha.
O homem mais avançado é o mineiro boliviano Simón Cuba, um excelente atirador, que faz fogo duas vezes, escondendo-se rapidamente. Por trás dele está Che, que também abre fogo, até que algumas balas o atingem nas pernas. Cuba, num heróico ato de lealdade, carrega-o sobre os ombros, tentando afastá-lo da linha de fogo. Mas outra rajada volta a ferir Guevara, fazendo sua boina voar longe. Cuba então apóia-o no solo e se dispõe a continuar disparado, mas está cercado, a menos de dez metros todos os rangers atiram sobre ele ao mesmo tempo.
Che está agora numa posição extremamente difícil, mas tenta a última resistência. Apóia-se numa árvore com uma das mãos, enquanto, com a outra, continua operando sua M2, apesar de se tratar de uma arma longa. Mas não o consegue mais que alguns minutos. Uma bala fere-o de novo na perna direita e outra o alcança justamente na mão que empunha a M2. A arma salta de sua mão, com o punho partido e a bala segue seu caminho, voltando a ferir o antebraço direito.
Os sitiantes o rodeiam, ele cai prisioneiro.
Tem várias feridas, mas sua vida não corre perigo. Também não perde a consciência, a tal ponto que um de seus agressores, com um músculo ferido e sangrando pela artéria femoral, ter sua vida salva graças às ordens dadas por Che para que se lhe fizesse um torniquete.
O prisioneiro é levado para Higueras, a uns doze quilômetros do lugar onde se deu o combate.
Sua sorte depende nesse momento de dois homens: um deles é o capitão Gary Prado Salgado, chefe de companhia dos rangers do 2º Regimento, que o capturou, e o outro é o coronel Andrés Selnich, comandante do terceiro Grupo Tático, superior hierárquico do primeiro.
Prado é um militar educado nos Estados Unidos; seu pai foi general do velho exército, que chegou a Ministro de Guerra. É um aristocrata, a quem os soldados chamam respeitosamente de “cavalheiro inglês”. Selnich também é, a seu modo, um aristocrata. Num exército onde nove em cada dez possuem sangue indígena, o coronel Selnich exibe sua raiz étnica européia, e isso o distingue dos outros.
Guevara conversa com os dois. Interessa-se em saber de que unidades procedem, qual foi sua formação profissional, se estiveram na escola de contraguerrilha do Panamá. Sofre com as diferentes feridas e enfraquece visivelmente, embora não tenha nenhuma hemorragia importante. Não se pode mover e, quando o tenta, desiste logo após. Os militares se preparam para transportá-lo para Higueras. Quatro soldados o levam, estendido sobre uma manta do Exército, e ali o deixam num quarto vazio de móveis, pertencente à escola do povoado.
Durante as horas seguintes, há uma expectativa tensa entre os oficiais e muitos comentários e murmúrios entre a soldadesca. Sabe-se que o major Nino de Guzmán tentou levar Guevara no helicóptero que dirige até a localidade de Vallegrande, onde podia chegar em apenas 20 minutos. Diz-se até que o major discutiu com o coronel Selnich, que insiste em primeiro transportar seus soldados feridos.
Inúmeras consultas se sucederam entre os captores e as autoridades militares, principalmente com o coronel Joaquín Zenteno Anaya, que comenda a oitava divisão do Exército , e mantém contatos telefônicos com La Paz. Na manha de 9 de outubro, as consultas chegam a um fim: Che será executado nessa mesma manhã, no lugar onde se encontra prisioneiro.
Está sentado no chão, as costas apoiadas contra a parede. Ofega debilmente e distingue com dificuldade, devido à má iluminação, a entrada de duas pessoas.
O capitão Prado aproxima-se por detrás e dispara-lhe uma rajada de metralhadora no pescoço, de cima para baixo. Quatro balas atingem o alvo. O coronel Selnich aproxima-se e dispara uma única vez sua pistola de nove milímetros. A bala atravessa o coração e um pulmão. È o tiro de misericórdia. Está morto.
Quando tentaram retirá-lo do lugar do crime, os dois verdugos não conseguiram ocultar um estremecimento de terror: Che Guevara tinha os olhos muito abertos e serenos e um sorriso que para eles significava desdém e, para o resto do mundo, simplesmente, amor.

Trechos tirados do final do livro “Meu Amigo Che”, escrito por seu amigo de revolução Ricardo Rojo. Nesse livro retratasse parte de vida de Che Guevara, revoltas na América Latina, ele foi forjado. Na revolução cubana teve um importante papel aos serviços de Fidel Castro, primeiro como medico e guerrilheiro depois como ministro do governo. Visitou inúmeros paises em missões diplomáticas, mas para ele ainda faltava algo, havia outras revoluções, ainda era um guerrilheiro, seus ideais não o deixavam parar em uma função diplomática, tinha ainda um grande caminho a percorrer, outros desafios.
Foi à África e se juntou com a revolução local, mas manobras políticas, envolvendo paises socialistas, o fizeram sair do Congo. Depois teve seu fim na Bolívia, em uma batalha onde suas chances de êxito eram poucas. Um homem que embora estivesse ferido, logo após ser capturado por seus inimigos, ajudou a salvar a vida de um de seus raptores horas antes de sua morte. Mas isso não pode ser chamado de fim, porque perdeu a vida, mas depois de sua morte, ainda faz parte de toda e qualquer revolução no mundo.